Quaresma, itinerário rumo à Páscoa do Senhor

Quaresma, itinerário rumo à Páscoa do Senhor

Mais do que um tempo compreendido e celebrado liturgicamente pelo espaço cronológico de quarenta dias, contado desde a quarta-feira de cinzas até quinta-feira da semana santa, a Quaresma é um caminho que a Igreja percorre preparando-se para as celebrações pascais, cujo cume celebrativo é o Domingo da Ressurreição. O caminho quaresmal deve ser percorrido cultivando a espiritualidade pessoal e comunitária, tendo em vista a festa magna da Páscoa do Senhor. Esse caminho é traçado com o objetivo de chegar mais próximo a Jesus.

Sabemos que o cristão é aquele já está unido a Cristo, pelo sacramento do Batismo. Mas, por causa própria natureza humana, nem sempre permanece na mesma vereda e, por vezes, distancia-se. A retomada do caminho se dá pela reaproximação através de três passos apresentados no Evangelho segundo São Mateus, no seu capítulo 6: a caridade, a oração e o jejum.

No presente artigo, abordaremos o percurso espiritual da Igreja que, aos poucos, foi se configurando e se expandindo à medida que os fiéis experimentavam o itinerário como tempo conveniente para maior proximidade ao Senhor, reconhecendo os pecados pessoais e retomando o desejo de conversão para haurir a graça da salvação.

 1. O surgimento e a evolução do itinerário quaresmal

Nos seus três primeiros séculos, a Igreja não celebrava a quaresma, tal qual apresenta a constituição Sacrossanctum Concilium, especialmente no seu número 109. As práticas mais comuns se resumiam numa preparação de dois ou três dias com jejum e orações precedendo a celebração da Páscoa. Somente a partir do século IV, em resposta a algumas circunstâncias que incorriam no distanciamento das práticas litúrgicas, alguns bispos perceberam a necessidade de delinear uma estrutura quaresmal mais intensa.

Eram orientações pastorais valiam apenas nos limites das dioceses ou regiões. Com o passar do tempo, verificados os frutos pastorais e a forte adesão dos fiéis, as práticas quaresmais foram ganhando amplos contornos. No Ocidente, estipulou-se duas ou três semanas de preparação para as festas pascais; Santo Agostinho e Santo Ambrósio se dedicaram a preparar reflexões catequético-pastorais próprias sobre período quaresmal, destacando o valor do sacramento da reconciliação em vista da grande celebração do mistério da salvação, elucidando a doação de Jesus e a via crucis como ápice do amor de Deus e caminho para a vida eterna.

 Antes do século IV, no Oriente, o aspecto litúrgico do itinerário quaresmal era mais evidente. Algumas fontes certificam que seis semanas antes do Grande Sábado de Aleluia os católicos intensificavam a preparação dos iluminados, ou seja, aqueles que desejam mergulhar nas águas batismais. Em algumas regiões orientais, esses catecúmenos eram preparados nas sete semanas que antecipam a celebração da Vigília Pascal, este período era chamado de septuagésima. Essa recorrente prática pastoral, sempre alinhada à tradição, se desenvolvia à luz do itinerário catequético oferecido pelos evangelistas. Por isso, é também conhecida como itinerário discipular, quando os iniciantes na fé cristã intensificavam o aspecto espiritual do seguimento a Jesus Cristo.

Nessa época, a preparação dos catecúmenos tinha início na quarta-feira antes do primeiro Domingo da Quaresma, quando no Oriente, observando a tradição antiquíssima de jejuar três dias antes da Páscoa, se iniciava o Tríduo Pascal. Escolheu-se essa data porque contando desse dia até a Missa da Ceia do Senhor, são exatamente 40 dias, ou seja, o tempo que Jesus, impelido pelo Espírito e após receber o batismo, passou no deserto enfrentando as tentações de satanás, vivendo entre animais selvagens e sendo servido por anjos (cf. Mc 1,12-13). Esse período corresponde exatamente a 40 dias desde que se excetue os cinco Domingos quaresmais e o Domingo de Ramos.

A liturgia quaresmal gestada nos primeiros séculos era celebrada em sintonia com alguns aspectos da natureza, conforme ensinara o Apóstolo São Paulo: “A criação em expectativa anseia a pela revelação dos filhos de Deus” (Rm 8,19). Nesse anseio de unidade entre a restauração do universo e a redenção dos filhos de Deus, foi estipulado que, para encontrar a data da Páscoa, dever-se-ia descobrir quando seria a primeira lua cheia após a primavera ocidental, ou seja, na região europeia. Geralmente coincide com o outono aqui no Brasil. Assim, detectado o dia da primeira lua cheia, conta-se quarenta dias para traz, deixando fora os domingos. Então, chega-se a uma data que convencionalmente será quarta-feira de cinzas.

Entretanto, convém perguntar: qual o sentido catequético da estação de inverno em relação ao itinerário quaresmal? Em largo sentido, o clima e a geografia regional da Europa nos introduz no aspecto espiritual da Quaresma. Pois a estação anual da primavera tem um enorme significado de renascimento da vida, uma vez que durante o inverno, devido ao frio intenso, a natureza se mostra como que ressequida e incubada e, quando surge a nova estação, ela expõe a sua interioridade cheia de vida.

Este aspecto da natureza pode, analogicamente, ser comparado ao mistério da Páscoa do Senhor. Ou seja, durante a Quaresma o clima sendo frio proporciona que as pessoas se encasulem, voltem-se mais para a interioridade através da prática espirituais, como o jejum e a meditação dos mistérios da redenção e, a seu tempo, ressurgirão para a vida nova inaugurada na ressurreição de Cristo. Esta explicação também nos faz entender por que a Páscoa é celebrada em datas móveis, isto é, que mudam a cada ano.

2. Aspecto bíblico-catequético do itinerário quaresmal

A palavra Quaresma, que vem do latim quadragesima, significa o período de quarenta dias que antecedem a maior festa do cristianismo: a Ressurreição de Jesus Cristo. Não sabemos concretamente quando foi instituída. O importante é que, aos poucos, foi sendo acolhida e vivenciada pelas comunidades como um tempo litúrgico propício para os católicos realizarem, pessoal e comunitariamente, a preparação para a Páscoa.

É por essa razão que, na experiência eclesial, durante o período da Quaresma os fiéis são convidados a fazer uma comparação entre suas vidas e a mensagem cristã, expressa majoritariamente nos Evangelhos. Esta comparação, embora numérica, proporciona um recomeço, uma nova oportunidade para acertar e ajustar a vida pessoal com os desígnios salvíficos de Deus.

Os trechos bíblicos proclamados na liturgia da Palavra durante esse período encontram respaldo nos dias do dilúvio, nos 400 anos que durou a estada dos judeus no Egito, nos quarenta anos de peregrinação do povo judeu pelo deserto, nos quarenta dias de Moisés e de Elias na montanha, nos quarenta dias nos quais Jonas pregou a penitência aos habitantes de Nínive e nos quarenta dias que Jesus passou no deserto antes de começar sua vida pública.

A catequese quaresmal, a partir das Sagradas Escrituras, objetiva iniciar o fiel nos exercícios próprios deste tempo tendo em vista a conversão do coração para Deus. Assim sendo, durante a Quaresma, os textos bíblicos são proclamados obedecendo uma sequência lógica que parte da história da salvação, aliança original, vocação de Abraão, o êxodo, o deserto e a história de Israel. O interesse pedagógico em apresentar a sequência de textos é retomar o conjunto de leis morais que incidem na vida cotidiana promovendo a revisão de vida e o ajustamento à vontade de Deus.

Em segundo lugar, há uma especial atenção aos dois aspectos que demandam continuidade: o arrependimento e a conversão. Ao suscitar a revisão pessoal das atitudes cotidianas, a Igreja insere os fiéis no caminho da conversão que, embora perpasse toda a existência humana, recebe maior atenção no tempo quaresmal. Em sintonia litúrgica, a seleção dos Evangelhos propõe uma reflexão mais pausada sobre o mistério da redenção consumado na cruz, enquanto momento de morte, e na ressurreição, enquanto triunfo da vida.

O itinerário litúrgico da Quaresma cultiva a paciência e a perspicácia, concebidas como virtudes que promovem uma total reconfiguração: aceitar a dimensão da fraqueza humana e enveredar o caminho da graça e, por outro lado, rejeitar a inércia que gera o danoso comodismo e tomar resoluções éticas e morais coerentes com a fé em Cristo e capazes de, com a perspicácia da experiência e a humildade de quem ainda está a caminho, fortalecer os passos de cada dia.

Paciência e perspicácia são próprias do Peregrino de Nazaré que, enquanto prosseguia seu itinerário, buscava a solidão das montanhas, a presença vivificadora do Espírito Santo, a companhia do Pai, a sabedoria da Palavra pronunciada ao coração atento e indiviso e o alimento que provinha do alto. Para percorrer o itinerário quaresmal é necessário observar essas regras de ouro vividas e ensinadas pelo Filho de Deus.

3. Aspectos teológicos do itinerário quaresmal

Se fôssemos eleger uma expressão que resumisse essencialmente a espiritualidade quaresmal, optaríamos certeiramente pela locução “itinerário”, pois a Quaresma é, de fato, um tempo propício para seguir um caminho de fé, marcado por recolhimento e silêncio, oração e penitência, jejuns e sacrifícios, reparação e reconciliação, meditação e estudo, doação e fraternidade, reconhecimento da pequenez humana e da grandeza da misericórdia divina, visando preparar o espírito para a acolhida do Cristo Vivo, Ressuscitado no Domingo de Páscoa.

Por esses atos o cristão prepara-se para renascer, intensificando a prática dos princípios essenciais de sua fé com o objetivo de ser uma pessoa melhor e proporcionar o bem para os demais. Excetuando-se o caráter penitencial, foi esse precisamente o sentido da vivência de Jesus: preparou-se para viver a sua missão, compreendendo-a como vontade absoluta do Pai que o enviou (cf. Jo 5,36) e respondendo prontamente, mesmo considerando a possibilidade de ir até as últimas consequências de suas escolhas em favor da vida abundante, pois descera do céu não para fazer a própria vontade, mas a vontade daquele que o enviou (Jo 6,38).

Desde suas origens, a Quaresma é concebida como tempo oportuno para o jejum, a oração e caridade. Esses três momentos concretos dever ser, sobretudo, vividos como prática pessoal. No Catecismo, encontramos o resumo do ensinamento da Igreja sobre esse itinerário: “Os tempos e os dias de penitência ao longo do ano litúrgico (o tempo da Quaresma, cada sexta-feira da quaresma em memória da morte do Senhor) são momentos fortes da prática penitencial da Igreja. Esses tempos são particularmente apropriados aos exercícios espirituais, as liturgias penitenciais, às pregações em sinal de penitência, às privações voluntárias em sinal de jejum e a esmola, à partilha fraterna”. (Catecismo, n. 1438).

Nesse sentido, a concepção e prescrição do quinto mandamento da Igreja, a saber, “jejuar e abster-se de carne, conforme manda a Santa Mãe Igreja”, decorre do objetivo de contribuir no itinerário espiritual do fiel beneficiando-o na aquisição do domínio próprio sobre seus instintos e desenvolver a liberdade interior possibilitando o seu crescimento à “medida da estatura da plenitude de Cristo” (Ef, 4,13).

O jejum, que atualmente praticamos, consiste em tomar uma só refeição diária completa, na hora de costume: pela manhã, ao meio-dia ou à tarde, com duas refeições leves no restante do dia. Os dias prescritos para o jejum e abstinência são a quarta-feira de cinzas e a sexta-feira santa. Quem está doente, não está obrigado a jejuar. Estes preceitos têm como finalidade chegar com o espírito livre e aberto às alegrias do Domingo da Ressurreição.

Além do jejum no primeiro dia quaresmal, a Igreja prescreve a abstinência de carne em alguns dias por ano. Praticar a abstinência é privar-se de algo e, ao mesmo tempo, acostuma-nos a privação de coisas supérfluas ou mesmo prejudiciais ao nosso estado de vida, pois fomos criados para a santidade (cf. Mt 5,48). O jejum e a abstinência de carne são métodos que servem para lembrarmo-nos de mortificar os nossos sentidos, orientando-os ao sincero arrependimento e à necessária emenda em nossos propósitos, libertando-nos de nossos pecados.

A partir do Concílio Vaticano II a penitência do tempo quaresmal é orientada para que não seja somente interna e individual, mas também externa e social. É próprio da penitência reparar os pecados que são ultrajes cometidos contra Deus, contra o próximo e contra si mesmo. Os atos de penitência praticados de modo espontâneo e consciente proporcionam aos pecadores atinar para o quanto o seu delito precisa de uma devida reparação e resgate. De momo muito particular, em virtude dos gestos de penitências, o pecador passa a detestar o pecado, a repará-lo e a evitá-lo. A este respeito a Sacrosanctum Concilium, no seu número 110, orienta: “Estimule a prática da penitência, segundo as possibilidades do nosso tempo, e das diversas regiões, como também segundo as condições dos fiéis e sejam recomendadas pelas autoridades”.

Concluindo essa breve reflexão, podemos dizer que, a cada ano, durante o nosso itinerário quaresmal, somos convidados a intensificar pessoalmente a prática da oração verbal ou mental, a buscar com mais afinco a instrução religiosa, e dedicar-nos com maior intensidade de espírito ao sacrifício e à caridade fraterna. Para que os passos sejam firmes e resolutos, recomendamos a frequência às pregações quaresmais, a leitura espiritual diária, particularmente da Paixão de Cristo, no Evangelho ou em outro livro de meditação, a prática de pequenos gestos considerados quaresmais.

Pe. Dr. Francisco Valter Lopes, sjc

 

Sugestões práticas para facilitar o itinerário quaresmal.

  1. Plantar sementes de flores e cuidar até o florescimento. Fazer associação com o mistério pascal.
  2. Compor uma jaculatória para rezar diariamente durante tempo de quaresma. Faça cópias e deixe em local comum para que outras também rezem.
  3. Acrescentar nas orações pessoais um Pai Nosso pelos catecúmenos que receberão o batismo na Vigília Pascal.
  4. Escolher para a leitura pessoal um texto escrito por um Santo Padre que fale do sentido do itinerário pascal.
  5. Colher flores todas as sextas-feiras da quaresma para ornamentar a imagem de Jesus crucificado.
  6. Rezar, na solidão de seu quarto, todos as quartas-feiras da quaresma, a via-sacra.
  7. Escolher uma gravura ou imagem da paixão de Cristo e trazê-la sempre consigo.

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