Fundador

Pe. José Gumercindo Santos - * 15/08/1907 + 10/09/1991

Pe. José Gumercindo Santos nasceu a 15 de agosto de 1907, na cidade de Itabaiana – Sergipe. Filho de José Januário dos Santos e D. Maria Rita de Jesus.

Nasceram do casamento mais duas irmãzinhas: Maria Dulcina que faleceu aos 15 anos e Maria Epunina que morreu em tenra idade.

O pequeno José aprendeu desde cedo, com sua piedosa mãe, a caminhar para a Igreja, tornando-se coroinha, logo que a idade o permitiu, revelando já, profunda inclinação para o sacerdócio. Com quatro anos, armava pequenos altares, onde celebrava à sua maneira. Fez sua Primeira Comunhão com sete anos de idade, a 15 de agosto de 1914. Em suas memorias relata as emoções de tão sublime momento:

“- Dizer o que falamos a Jesus naquele momento de emoção é óbvio: Pedi o Céu para mim e para os meus. Pedi a graça de ser padre e pedi tantas coisas mais, que eu nem cantava…”

Abandonado pelo pai que trocou o lar pelo El-Dourado da Amazônia, viveu em pobreza e privações a sua infância e sendo então o único homem da casa, como dizia, assegurou com seu trabalho de criança, o sustento próprio, de sua mãe e da irmãzinha. Assumiu essa responsabilidade com decisão, não lhes faltando a partir daí, o necessário. Por esse senso de responsabilidade tão precoce, deram-lhe o nome de “Nozinho” (diminutivo de Senhor), mais tarde Pe. Nozinho, pelo qual era conhecido em sua terra natal.

Naquele menino já despontava o bravo lutador, o “vir fortis”, o sacerdote íntegro, que confiando em Deus, jamais deu provas de fraco, ante os reveses e provações da vida.

Contava 11 anos quando chega em Itabaiana o bondoso salesiano Pe. Pedro Ghislande, que informado do seu desejo de ser padre, convida-o para fazer parte da família salesiana do grande São João Bosco.

Pe. Ghislande que passou a chamá-lo carinhosamente de “Quequeme”, palavra do seu dialeto Bergamasco, recebeu-o seis meses depois na Escola Agrícola Salesiana de Tebaida, nas proximidades de Aracaju. De lá, é mais tarde transferido para Jaboatão – Pernambuco com seus colegas e depois para o Colégio São Manoel em Lavrinhas – São Paulo, onde conclui os estudos secundários. Conheceu ali, segundo suas Memórias, sacerdotes com alma de verdadeiros santos; entre eles cita o Pe. Antônio Varchi e o Pe. Antônio de Almeida Lustosa, mais tarde arcebispo de Belém – Pará e de Fortaleza – Ceará.

Em Lavrinhas fez seu Noviciado em 1925 e em 28 de janeiro de 1926, sua Primeira Profissão Religiosa em mãos do grande Inspetor salesiano, Pe. Pedro Rota.

Dali por diante abandona-se totalmente nas mãos do Senhor, como a criança inocente se atira amorosa e feliz nos braços paternos, sem se preocupar com o que lhe possa acontecer. Tanto na fase de sua formação como no desempenho de sua missão sacerdotal e de fundado, jamais lhe faltou a confiança filial e cheia de amor na Divina Providência.

Em fins de 1926 retornou a Jaboatão, inaugurando com outros colegas a recém-fundada Inspetoria de São Luís de Gonzaga, e iniciando aí o curso de filosofia, em 1927.

Em 1929, impulsionado pelo ardor missionário, foi enviado a seu pedido, para as Missões Salesianas do Alto Rio Negro em São Gabriel (hoje Uaupés), fazendo ali o seu tirocínio em meio a privações e sacrifícios, no isolamento de uma Missão daqueles tempos e naquelas paragens. Mas, essa experiência o enriquece espiritualmente, fortalecendo-o para a missão que o aguardava.

Como assistente e professor de 100 indiosinhos tucanos, tem a oportunidade de estudar o “nheengatu”, a bela língua Tupi-Guarani, da qual iniciou um Dicionário e que lhe serviu de base para a língua LIZU que idealizou mais tarde, para uso das congregações que fundou.

Em 1930, sofrendo estafa, regressa a Recife e em 1931 vai cursar a Teologia em São Paulo, no Instituto Pio XI, inaugurando com os de sua turma, esse curso ali.

Aos oito de setembro de 1934 é ordenado sacerdote no Santuário Salesiano do Sagrado Coração de Jesus em Recife, pelas mãos de Dom Manoel de Paiva, bispo de Garanhuns e continua como padre, sua vida de total doação à Igreja e à Congregação Salesiana.

Após a ordenação sacerdotal, ele contava que recebeu de presente do Inspetor Salesiano Pe. José Selva, dois livrinhos. Pedindo-lhe este que em cada um, uma frase latina que o definisse, escreveu em um: “Ne projicias me a facie tua, Domine“. – Não me lances longe de tua face, Senhor. No outro livrinho escreveu: “Tibi derelictus est pauper, orphano tu eris adjutor“. – A ti deixei o meu pobre, tu és a ajuda do órfão. “Com estas palavras, selava minha vocação especial”, dizia ele em suas Memórias.

Serviu à Congregação Salesiana por 29 anos com sua inteligência, seu trabalho, seu dinamismo, seu caráter peregrino e sua fé extraordinária. De espírito generoso, sempre disponível, jamais deixou de abraçar os mais pesados encargos, as responsabilidades que outros rejeitavam, doando-se sem reservas, pela congregação que o acolheu e a quem amava, empenhando-se com entusiasmo, na sua formação humanística e sacerdotal, para melhor servi-la.

Com grande paciência e serenidade, suportou incompreensões e injustiças partidas de corações mesquinhos. Se no início das fundações ele trocou o nome Salesiano pelo de Joseleito de Cristo foi por não lhe darem outra opção, forçado por aqueles que não entenderam ou não quiseram entender a força do carisma que o impulsionava a cumprir uma missão que o Senhor lhe destinara.

É comovente lê-se o que ele escreve em suas Memórias, referindo-se aos que o perseguiram: – “Eles trabalharam para lançar-me fora do convívio da escola de Dom Bosco. Fisicamente apenas o conseguiram, pois ninguém jamais apagará de minha alma o amor a Dom Bosco e à obra salesiana. Para esses, temos a misericórdia das nossas orações e o nosso perdão”.

Cada etapa de sua vida, aprimorada pela dor, plasmava nele o futuro fundador de três famílias religiosas. O martírio que tanto almejou desde criança, concretiza-se no dia a dia, pelo sofrimento e perseguições que sofreu até conseguir a realização dos seus ideais. Em meio às amarguras e incompreensões, portou-se com grandeza de fé e de espírito, agindo como os santos, rezando pelos que o perseguiam.

Com o coração a sangrar de dor, jamais perdeu a esperança e a confiança n’Aquele que o confortava nas horas difíceis e na proteção de Maria Santíssima, a que sempre devotou fervorosa e filial devoção. Nesse clima de sofrimento, encontrou luzes e força para realizar, impelido pelo sopro Divino, a fundação das Congregações que hoje são um testemunho vivo do seu carisma, juto à Igreja e ao Povo de Deus.

Já como sacerdote, continua em Jaboatão, no cargo de Conselheiro Escolar. No ano seguinte irrompe a revolução comunista em Pernambuco, no momento exato em que acabava de celebrar missa, numa capela de religiosas em Socorro, perto da Vila Militar.

Assim, ele relata o fato, em suas Memórias: “Quando chegou a hora do Evangelho e de corpo curvado diante do altar rezava a oração ‘Munda cor meum’, aconteceu-me o inesperado: uma voz forte me disse ao ouvido direito: – Pregue! Outra voz forte no ouvido esquerdo, dizia: – Não pregue! Três vezes ouvi aquelas vozes e raciocinei: a que diz ‘não pregue’ é a de Deus, pois não precisaria Deus me dizer que eu fizesse o que sempre fazia. Toquei a missa para a frente. Terminada, não tomamos o café de costume. Entramos no carro e ao passar a pequena ponte antes de Jaboatão, começou na Vila Militar o tiroteio e o canhoneio ribombou. Rebentara a revolução comunista”. Ele escapara milagrosamente, quando não de ser fuzilado, de ficar prisioneiro da revolução.

Durante doze anos de sacerdócio, torna-se presença atuante e dedicada em diversos colégios salesianos do Norte e Nordeste, exercendo com eficiência de um educador nato, o magistério e outras funções, tais como Conselheiro Escolar em Jaboatão, Vice-Reitor no Seminário de Belém e de 1938 a 1940, secretário particular do arcebispo de Belém, Dom Antonio de Almeida Lustosa (Hoje está sendo encaminhado o Processo de Beatificação de santo homem).

De 1941 a 1944 retorna a Recife para secretariar a Inspetoria Salesiana do Nordeste. Funda a Revista “Segue-me” em prol das Vocações Salesianas e nas férias, peregrina de cidade em cidade, descobrindo vocações e angariando assinaturas da Revista para o sustento dos seminaristas. Dos cento e vinte vocacionados que atenderam aos seus apelos, vinte se tornaram sacerdotes.

Em suas Memórias escreve: “O fluxo e refluxo que se deram nesses anos, foram marcos indeléveis que me lançaram na vida de fundador de sociedades religiosas”. É que além das atividades múltiplas que assumiu, sem descanso, os sofrimentos aumentaram de muito.

Em 1945 é inesperadamente transferido para o Colégio Domingos Sávio de Baturité – Ceará. Era a mão amorosa de Deus, conduzindo-o para o lugar do desfecho de sua missão.

Em Baturité, como professor e confessor da casa, Padre Gumercindo encontra entre as alunas do Colégio Nossa Senhora Auxiliador, sob sua direção espiritual, aquelas escolhidas por Deus para com ele dar início à fundação da Sociedade Santa Teresinha. Em 24 de maio de 1946, algumas fazem a Primeira Profissão Religiosa no sigilo do confessionário. Assim era preciso. Em outubro já contava com 25 candidatas, mas descoberto o segredo, recomeçam as perseguições, agora abertamente, até do púlpito. A algumas candidatas foi negada até a Comunhão, enquanto a ele, retornando a Baturité, foram-lhe fechadas as portas do Santuário onde como sacerdote tantas vezes celebrou, dando a todos um testemunho edificante.

É então enviado ao desterro de Ananindeua, no Pará, mas antes pede permissão para rever sua mãe em Sergipe. Ali, encontra apoio para a fundação, no bispo de Aracaju que o conheceu desde criança, Dom José Tomás da Silva e em março de 1947, traz de Baturité, após vencidos mil obstáculos, as oito fundadoras, consolidando em Boquim, a 12 de março, a fundação da Sociedade Santa Teresinha. Não lhe permitindo os salesianos que ele fundasse a congregação como um deles, pede, não sem tristeza a dispensa dos votos. Funda em Boquim o Ginásio Santa Teresinha, um dos marcos pioneiros da educação do interior do Estado.

Em 1950 vai a Roma e mediante instruções de lá recebidas realiza a fundação masculina, a Sociedade Joseleitos de Cristo, que paralisada por alguns anos por imposição da autoridade diocesana, é reestruturada em 1958, já em Tucano – Bahia.

Morrendo o velho bispo e pressionado pelo seu substituto, o Pe. Gumercindo deixa o Estado de Sergipe e se transfere para Tucano, diocese do Senhor do Bonfim naquela época, onde Dom José Alves Trindade lhe entrega a Paróquia de Senhora Sant’Ana e que assume por 35 anos, evangelizando com verdadeiro espírito apostólico. Deu aí o mais edificante testemunho do sacerdote íntegro, sempre pronto diante do dever, pastoreando, amando e ajudando o seu rebanho com exemplar caridade e desprendimento tal que edificou e conquistou o coração do povo.

Em suas Memórias ele relembra o evento e com suas palavras demonstra que também foi conquistado pelos paroquianos, quando diz: ” – Pela primeira vez na vida, depois de vinte anos de sacerdote, senti-me pastor de ovelhas humildes no sertão… Até hoje, após vinte e oito anos de labores, só tenho que ser grato a Deus e a essa gente que entrou definitivamente no meu calendário”.

Em Tucano, com esforço ingente, contando só com o auxílio da Divina Providência e nas ajudas que consegue em exaustivas viagens ao exterior, constrói o Seminário São José, vocacionário dos futuros padres joseleitos, que sempre acolheu e deve acolher, por vontade manifesta do fundador, a todos os vocacionados, gratuitamente. Impelido pelo seu carisma de educador, funda também em Tucano o “Centro Educacional Senhora das Graças”, estabelecimento de ensino de 1º e 2º Graus e não pára por ai.

O desejo de sempre fazer o bem foi uma marca indelével do Pe. José Gumercindo. Sua dedicação ao Reino de Deus o fez construir o “Lar Dona Ritinha” para acolher os velhinhos indigentes, não só de Tucano, mas de onde chegar.

O seu fervor não conhece barreiras e na força dele, mais do que isso, inspirado pelo Santo Espírito, funda em 8 de setembro de 1960 com algumas religiosas da Sociedade Santa Teresinha, a Congregação Divino Mestre, filha caçula do seu coração, para continuar vivendo seu carisma, junto ao povo de Deus, educando, evangelizando e lhe dando assistência onde se fizer necessário.

Referindo-se a esta fundação, na primeira “Carta Circular” às irmãs da Congregação Divino Mestre, confessa: “- Vocês, heroínas, fundadoras do “Círculo Divino Mestre”, estavam dispostas ao que desse e viesse, nas andanças da vida. Fostes vós, para mim um grande alento na consecução dos meus ideais”.

No seu sofrido peregrinar, o Senhor quis consolá-lo e antes de sua partida para a Casa do Pai, deu-lhe a grande alegria de ver as três congregações aprovadas pela Igreja e em plena atuação e florescência.

Em 1978 passa pela grande dor de ver sua genitora, Dona Ritinha partir para a eternidade. Ela que era além de mãe, sua companheira e a fada benfazeja que velava pelos seus seminaristas, deixou-lhe uma imorredoura saudade e uma lacuna insubstituível. Em junho de 1980, assoberbado de trabalhos e preocupações, sofre uma grande estafa, inspirando cuidados aos seus filhos e filhas. O médico que o atendeu, prescreveu-lhe seis meses de repouso, ficando este tempo no “Instituto Pe. Gumercindo”, sob os cuidados de suas filhas da Congregação Divino Mestre, já que no Seminário São José, não conformaria em ficar em descanso. Mesmo assim, nesse mesmo ano ainda, vai à Europa resolver em Roma assuntos das Congregações.

Nas décadas de 1950 a 1980, em busca de recursos para suas obras ou buscando da Igreja o apoio canônico para suas congregações, Pe. Gumercindo viaja com a “fé e a coragem”, desde a América do Norte e do Sul ao Velho Continente Europeu. Assim é que faz cinco viagens aos Estados Unidos, três ao Canadá e três à Europa. E em Roma se avista com os Papas de então: Pio XII, Paulo VI e João Paulo II, a quem ele admirava muito e do qual obteve uma audiência.

Como peregrino, viaja como um grupo de irmãs e um padre das três congregações, visitando Israel, com muita devoção, os lugares santos por onde Jesus viveu, sofreu e morreu. Grande devoto da Santíssima Mãe de Deus, não esquece nessas viagens de visitar com devoção filial os seus Santuários em Lourde (França), Nazaré (Galiléia), Loreto e da Guardia (na Itália), Fátima (Portugal) e Cap. de Magdalene (Canadá).

Desses lugares de verdadeira piedade, ele sempre dizia: ” – Voltava mais afervorado, no amor a Nossa Senhora, mais encantado com a bondade divina e mais disposto para continuar sua grande peregrinação em busca do céu”.

Pe. José Gumercindo soube, iluminado por Deus, empregar bem os talentos Dele recebidos. Dotado de dons artísticos e literários, empregou-os como motivação no seu labor educativo e missionário. Escreveu com maestria Peças para Teatro Infantil e Juvenil, Artigos para Conferências, Poesias e Hinos de rara beleza. Criou a Banda Marcial de Tucano, sendo além de músico, compositor. Tocava flauta, piano e órgão muito bem. Os hinos que cantamos em nossas congregações são letra e música de sua autoria. Só a Nossa Senhora, sua doce estrela, dedicou mais de dez lindas composições musicais.

Seu primeiro ensaio literário foi em 1935, fundando um Jornalzinho, “O Aspirante”. Em 1940 funda, como salesiano a Revista Vocacional “Segue-me”. Escreve o livro “Exercícios Latinos” para facilitar a aprendizagem dessa língua. Visitando Roma inspira-se e escreve o Romance Cristão “ASAEL”.

Fundou e foi redator do “Boletim Joseleito”, escrevendo ainda os seguintes livros, já publicados: Jubileu de Prata do CESG, Pedaços d’Alma (Biografia), Para Boi Dormir e finalmente Quarenta Anos no Deserto, seu Canto de Cisne, publicado “post mortem”.

Era poliglota, falando fluentemente latim, francês e italiano. Criou e organizou, como língua das Congregações, a LIZU, de fácil manejo.

Apóstolo incansável das vocações, funda em Tucano o Seminário São José, para acolher os jovens vocacionados, principalmente aqueles que pela pobreza não tem condições de frequentar os seminários pagos. Deixou como norma de suas congregações jamais exigir pagamento na formação dos vocacionados acolhidos em suas comunidades.

Com seus 84 anos de uma vida rica de fé e iluminada pelo amor, espírito lúcido e esclarecido, tendo ainda na alma o entusiasmo de jovem, desconhecendo as canseiras dos anos, permaneceu como Mestre de Noviços até o dia em que o Senhor o chamou. Diariamente e com grande pontualidade fazia conferência para eles e à noite dava a “Boa Noite” a todos da comunidade com muita fidelidade.

O peso dos anos vividos prateou-lhe os cabelos sem enfraquecer-lhe o fervor que o fez palmilhar distâncias infindas, em visitas e assistência devotada aos seus filhos e filhas, no seu zelo incansável de pai. O seu desvelo pela promoção dos mais humildes vai além, fundando colégios e obras assistenciais, destacando-se como grande educador e defensor dos pobres e desamparados, cumprindo com admirável dedicação o lema que escolheu no dia de sua ordenação sacerdotal.

Foi um forte, um guerreiro lutador em defesa do bem e da verdade, um gigante da fé. Por sua atuação cheia de amor e desambição, muitos municípios da Bahia e Sergipe que conheceram de perto o valor de sua obra, consideraram um privilégio tê-lo entre os seus filhos ilustres.

Boquim (Sergipe), Tucano, Quijingue e Monte Santo (Bahia) o elegeram cidadão honorário, por justo reconhecimento e mérito.

Formado na escola do Grande Dom Bosco, desde criança aprendeu a amá-lo com o devotamento de um filho, e a tê-lo como modelo de virtude. Seguindo os passos do Mestre, do Evangelho hauria inspiração para todos os seus atos. Viveu com grande fidelidade o sublime mandamento de Cristo: “Amai-vos uns aos outros…” No dia a dia sua caridade era uma constante no trato com todos e no dirigir e corrigir os seus. Para com os pobres tinha um carinho especial e jamais os deixava partir sem minorar sua dor ou sua necessidade. Certa vez um dos seus padres, pressionado e angustiado ante o julgamento dos irmãos, encontrando nele perdão e acolhimento, diante dessa caridade extraordinária, exclamou, cheio de gratidão: “- Louvado seja Deus pelo coração que acolhe, pelas mãos que abençoam, pelos lábios que perdoam”!

Muitas vezes ouvimo-lo dizer aos que não sabiam compreender o irmão: “- Viva e deixe os outros viverem! Só Deus é quem pode julgar!”

Assim a caridade refletia-se em todos os seus atos, e conviver com ele era encher-se de Deus. Desapegado dos bens terrenos, doou-se totalmente ao serviço da Igreja e dos irmãos que amava e servia com dedicação total, espalhando bondade em seu caminho.

Nas Constituições que escreveu para as três Congregações, o Capítulo que se refere à Caridade Fraterna é admirável; sente-se que foi escrito sob inspiração divina, tão eloquente e profunda é a mensagem de amor que nos deixa.

Humilde e desprendido, soube viver com a simplicidade e a pureza das grandes almas. A adoração profunda a Jesus na Eucaristia e a terna devoção a Maria Santíssima, a quem recorria sempre nas horas difíceis e a quem  louvava constantemente na prece e no canto, mantinham-no continuamente em clima de oração, voltado para o Senhor, mesmo quando mergulhado nas múltiplas responsabilidades e atividades inerentes à missão de fundador.

Era  também muito devoto do glorioso São José e de Santa Teresinha, venerando também com amor os demais santos protetores das Congregações, dizendo que a cada um, devia um favor especial.

Usava como meios de formação para os seus, quer no campo espiritual, como sócio-moral, as sugestivas e sempre oportunas “Boas Noites”, diariamente, após as orações da noite; as animadas Tertúlias em homenagens aos santos protetores; as Conferências diárias, verdadeiros tesouros de espiritualidade e cultura. Nas comunicações à distância, as Circulares, para a formação e acompanhamento dos rumos religiosos e administrativos das Congregações.

As obras das três Congregações, dinamizadas pelo carisma de seu abnegado Fundador, hoje se espalham por vários Estados do Brasil, desde São Paulo à Belém do Pará, beneficiando milhares de pessoas. Vale ressaltar que até na África o carisma do Pe. Gumercindo já se faz presente através das Irmãs da Congregação de Santa Teresinha.

No dia 15 de agosto de 1991 o Pe. José Gumercindo completou 84 anos festejado por seus filhos e filhas espirituais, amigos e ex-alunos. Nesta data ele escreveu em seu diário: “Agradeço à Mãe do Céu ter feito hoje os meus 84 anos de vida toda entregue a Ela, como escravo de Maria”.

No dia 7 de setembro, na Santa Missa celebrada pela Pátria no Seminário São José ele conclui suas orações com o piedoso “Exercício da Boa Morte”, que sempre fazia mensalmente e do qual participaram os noviços e as religiosas de Tucano.

No dia seguinte, 8 de setembro, celebra na Igreja Matriz de Tucano em Ação de Graças pelo seu 57º aniversário de Ordenação Sacerdotal. Na homilia, recorda o dia feliz em que se fez ministro de Deus, com mais três companheiros. Deixa então em seu diário sua última frase escrita: “Mil graças a Deus que me fez sacerdote do Altíssimo há 57 anos”.

No dia 09 de setembro celebra na capela das Irmãs, no “Instituto Pe. Gumercindo” e logo após viaja com elas para Feira de Santana, conforme combinara anteriormente para revisar o seu 5º livro que estava no prelo. À tarde, já em Feira de Santana, vai com as irmãs à tipografia da “Sagra” e revisa alguns capítulos de “Quarenta Anos no Deserto”, verdadeiro testamento espiritual deixado para seus filhos e filhas.

No dia 10 de setembro, ainda em Feira, as 6h30, celebra a Missa na Capelinha das Irmãs e durante o dia, lê, conversa com elas e brinca com as crianças do “Educandário”, intercalando momentos de oração. Ao meio-dia atende um telefonema dos joseleitos reunidos em São Paulo e consultado sobre a oportunidade de uma reunião, responde: “Não só aprovo, mas abençoo, contanto que seja para o bem da Sociedade (Congregação)”.

Às 14h00, deixando o Jornal “A Tarde”, que lia, convida as irmãs a rezarem com ele para que a reunião em São Paulo fosse bem-sucedida. Era o pai solícito, preocupado com a congregação e com os filhos!

Às 19h00, instantes depois de rezar caminhando como de costume, o 3º terço, diário, em louvor de Nossa Senhora, o nosso Pai Fundador sentiu-se mal e foi socorrido por suas abnegadas irmãs e levado às pressas ao Pronto Socorro do EMEC, onde, avisado, já o esperava o seu médico cardiologista, Dr. Mário Sérgio Bacellar. Este, vendo que o caso era grave, transportou-o imediatamente para a UTI, envidando todos os esforços para salvá-lo.

Aquele coração generoso que tanto pulsou de amor por Deus e pelos seus semelhantes, não resistiu mais.

Às 20h30 entregou a Deus sua alma eleita, purificada pelo sofrimento e pelo amor.

Suas últimas palavras ao sentir-se mal foi: “Valei-me minha Nossa Senhora!”. Ela a quem ele amou ternamente durante sua peregrinação terrena, certamente o conduziu ao Paraíso.

A notícia divulgou-se rapidamente pela Rádio Sociedade de Feira e pela TV Itapoan, acorrendo dali de Salvador e Tucano, sacerdotes, religiosos, ex-alunos e amigos que o prantearam e velaram durante toda a noite, na Capela das Irmãs.

No dia seguinte foi levado por elas à sua amada Tucano, onde já o esperava uma grande multidão. Foi velado todo o dia na Igreja Matriz e à noite no seu amado Seminário São José, que construiu com tanto amor e sacrifício.

Durante toda a noite e por toda manhã do dia seguinte, as missas se sucederam num clima de dor, gratidão e saudade. Acorreram de todos os recantos do país, seus filhos e filhas espirituais, amigos, paroquianos, ex-alunos e alunos dos estabelecimentos de ensino por ele fundados, prestando-lhe a última homenagem, na certeza de agora terem mais um intercessor junto a Deus.

A Assembleia Legislativa Federal em Brasília, as Assembléias Estaduais da Bahia e de Sergipe, juntos às Câmaras Municipais de vários municípios baianos, enviaram Moções de pesar, através de Parlamentares, ex-alunos, amigos e admiradores do sacerdote “que lhes deu em vida, exemplo de dignidade, de amor a Deus, de virtude, de “Homem Santo” que foi, na expressão de um deles.

Às 15h00 houve a última missa de Corpo Presente na Igreja Matriz, concelebrada por Dom Mário Zanetta, bispo diocesano de Paulo Afonso, por Dom Jackson Berenguer Prado, 48 sacerdotes, entre joseleitos, diocesanos e amigos, presentes quase todos as religiosas de suas congregações e de outras, sendo seu corpo levado por uma grande multidão consternada e comovida, para o repouso dos justos no Cemitério da Família Gumercindiana, construído por ele nas terras do Seminário São José, hoje transformado em Capela Mortuária.

Sua alma eleita, adornada em vida de tantas virtudes, certamente já está gozando da eterna e inefável visão de Deus.


Texto: Ir. Theosete Gomes de Oliveira, cdm

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